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Não faz muito tempo, a disponibilidade de recursos financeiros era o grande diferencial para quem queria investir em negócios inovadores aqui no Brasil. Com pouco capital buscando investimentos de risco (já fomos o país da renda fixa! eita, peraí, ainda não somos!), a capacidade de assinar um cheque, por si só era, inclusive, o que o próprio mercado buscava. Afinal, é money que resolve as coisas, certo? É preciso olhar também o smart. A junção dos dois cria o que se conhece como smart money.

Um investidor precisa trazer para a mesa outros elementos como conhecimento de mercado, uma ampla rede de contatos e paciência e disponibilidade apoiar na montanha-russa que é tocar uma empresa. São esses os fatores que somados ajudam as empresas a pensar em novas estratégias de negócio, práticas de gestão, atrair clientes, aumentar o desempenho dos funcionários e também dos próprios fundadores/fundadoras.

E como agora o mercado está bem irrigado em termos de recursos, não são mais só as startups que precisam apresentar seus diferenciais. Os fundos também precisam ter aquele “plus a mais” que pode fazer a diferença durante o ciclo de investimento. “No passado, quando você ia captar dinheiro, os poucos fundos que existiam gastavam 2 minutos para se apresentar. E se você levasse não de 2 ou 3 dos 5 disponíveis, você tinha que voltar pra casa e repensar tudo. Hoje, os fundos gastam os primeiros 20 minutos se vendendo e tem muita opção disponível”, conta Fabian Valverde, presidente da fintech Paketá, e que está no mercado de tecnologia desde o início dos anos 2000 – quando era tudo mato, basicamente.

“O mundo mudou muito na última década, especialmente no Brasil, que teve um movimento de taxas de juros muito baixas. Isso fez com que o capital ficasse cada vez mais abundante e o dinheiro por si só tivesse cada vez menos valor. Os donos das empresas precisam buscar bons sócios, que de fato vão contribuir para que o negócio cresça e se sustente”, diz Luiz Guilherme Manzano, sócio do fundo de venture capital big_bets.

Em 2019, startups brasileiras receberam US$ 2,9 bilhões em aportes, de acordo com o Distrito. Em 2020, também não faltou dinheiro. Foram US$ 3,5 bilhões, 17% a mais que em 2019. Ano passado, mais um recorde, com quase US$ 10 bilhões. E a competição ficou mais ampla com o aumento no interesse de investidores estrangeiros. “Todos os investidores precisam se diferenciar de alguma forma. O capital em si é uma commodity, e os investidores que vão se destacar precisam oferecer algo além do dinheiro”, diz José Pedro Cacheado, sócio da Norte Ventures.

“Com a maturação do mercado de venture capital brasileiro e com a chegada de um número maior de investidores, os fundos precisam achar a vantagem competitiva deles para se diferenciar da competição. Este fator com certeza contribui para o aumento do número de fundos com uma proposta de smart Money”, completa.

Por que vale a pena

“De maneira geral, o smart money pode trazer atalhos importantes, abrir portas em lugares de interesse para a empresa investida e trazer expertise em certas indústrias”, afirma Cacheado, da Norte Ventures, que tem em seu portfólio nomes como Tractian, Pier, Kovi, Buser, Yuca e Trybe.

Para ele, um dos principais benefícios do smart money para as startups é a oportunidade de ter ao seu lado alguém que passou pela mesma jornada empreendedora que o fundador da empresa está passando. “É muito valioso ter alguém que possa ajudar com a contratação, estabelecimento da cultura da empresa, estrutura da equipe e tudo relacionado à construção do negócio”, explica. Isso pode ajudar o empreendedor a cortar caminhos e chegar a decisões assertivas de maneira mais rápida.

Outro ponto é a expertise de alguém que trabalha na indústria em que a startup está atuando. “Pessoas inseridas em indústrias específicas já possuem o network dentro do setor e sabem o que geralmente funciona ou não”, diz José, destacando também o networking como um instrumento valioso nesse processo, pois abre portas para potenciais clientes, fornecedores e parceiros.

Luiz Guilherme, do big_bets, acrescenta que o mais importante são os insights, quando o investidor aproveita sua experiência para contribuir com novas visões para o empreendedor. Muitas vezes, o fundador fica focado no negócio e perde a visão periférica do mercado.

“O investidor que já passou por essa experiência viu as oscilações do ecossistema e tem estômago para ajudar o empreendedor quando algo ruim está acontecendo”, diz o executivo. O mesmo funciona do outro lado da moeda: se o negócio vai muito bem, cabe ao investidor ajudar a empresa a manter o pé no chão para não deixar o sucesso e os bons resultados subirem à cabeça.

Ninguém sai perdendo

Segundo Cacheado, da Norte Ventures, um mercado de venture capital mais maduro e fomentado é vantajoso para todos. A equação é simples: mais investidores, mais capital disponível para financiar o crescimento de novas empresas. E o melhor: os founders podem escolher os sócios que mais se encaixam com o negócio. Na outra ponta, os fundos, querendo driblar a competição, precisam buscar outras formas de gerar valor para as empresas investidas, movimentando ainda mais o mercado.

Para Monica Saggioro Leal, cofundadora da Maya Capital, as vantagens extrapolam as próprias startups e impactam o ecossistema como um todo. “A taxa de mortalidade das startups na fase seed ou pré-seed ainda é muito alta, beira os 70%”, diz a executiva. 

De acordo com o estudo “Causas da Mortalidade de Startups Brasileiras”, elaborado pelo Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, pelo menos 25% das startups morrem no primeiro ano de vida e 50% até o 4o. Por que as startups quebram? Uma pesquisa da consultoria norte-americana CB Insights alerta que 38% delas deixam de existir por falta de capital e 35% porque o produto ou serviço não tinha necessidade no mercado.

Na sequência, estão outros fatores cruciais para o negócio, como o fato da startup ser vencida pelo competidor (20%), ter um modelo de negócio falho (19%), ter enfrentado desafios regulatórios ou legais (18%), manter custos altos (15%) e não ter construído um time certo (14%). Muitos desses entraves, porém, poderiam ser evitados com o suporte e expertise de mentores que conhecem o mercado.

“O smart money ajuda as empresas a superar esses desafios e contribui para um ecossistema com mais exemplos de sucesso. Isso diminui a taxa de mortalidade e, mais importante, cria um ciclo virtuoso. Atrai novos talentos a começarem seus negócios, porque eles veem que é possível se manter”, explica Monica.

Perguntei para a Monica o que ainda falta para o smart money ganhar mais força e relevância no ecossistema. Em sua opinião, a resposta é fundos estruturados, preparados para adotar essa modalidade. “Não é só injetar o dinheiro na empresa. É estar lá para ajudar a resolver os problemas no longo prazo. Isso exige uma abordagem hands-on, dedicando tempo e esforços ao negócio”, conclui.

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