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Meus primeiros dias no Clubhouse: revolucionário, ou novo Orkut?

Por Gustavo Brigatto, em 4 de fevereiro de 2021

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Começo esse texto com um aviso e uma dica. O aviso: não tenho convites disponíveis no momento. Mas eles sempre aparecem, então me dá um toque se quiser um. A dica: mesmo sem um convite, se cadastre para ficar na lista de espera. É que se algum contato seu estiver no aplicativo, ele/ela pode “te colocar pra dentro” – e a pessoa ainda ganha créditos por isso.

Bom, se você sabe do que eu estou falando, pode pular para o fim do texto pra ler minhas opiniões. Mas se você não entendeu patavinas do que está acontecendo, deixa eu dar dois passos para trás para te explicar o que é o Clubhouse.

Entenda o caso

Em poucas palavras, trata-se de uma rede social baseada em conversas por voz que podem acontecer em salas privadas, ou abertas ao público. Uma espécie de podcast ao vivo. Pensa no bate-papo do UOL, mas com voz. É mais ou menos isso. Ah, um detalhe. Por enquanto só funciona no iPhone.

E são nessas salas abertas (que podem ser criadas ocasionalmente, ou ficarem sempre disponíveis com o status de Clube) que a ação tem acontecido. As discussões abordam os temas mais diversos – já teve apresentação do elenco do musical O Rei Leão, tem grupos em que as pessoas cantam canções de ninar umas para as outras, fazem meditação guiada e muita, mas muita conversa sobre startups e venture capital.

Investidores do Vale do Silício, aliás, foram os primeiros a usar o aplicativo de forma mais intensa no meio do ano passado. Nas últimas duas ou três semanas, suas contrapartes brasileiras começaram a entrar na brincadeira, junto com fundadores e nomes conhecidos do Twitter e do Instagram.

E poder trombar com pessoas influentes e famosas é o que tem atraído bastante atenção para o Clubhouse. Elon Musk, por exemplo, tem aparecido bastante por lá e tem sido um dos garotos propaganda do aplicativo.

Outro fator que tem feito a rede bombar é a escassez. Para entrar, você precisa ser convidado – se ligou agora no que eu falei no 1º parágrafo? A estratégia, que também já foi usado pelo Orkut, pelo Gmail e pelo próprio Facebook aguça a curiosidade das pessoas, e a “necessidade urgente” de fazer parte daquela coisa nova. Ninguém quer ficar de fora, né!

Trajetória meteórica

Em menos de um ano, o Clubhouse passou de um teste na App Store para 2 milhões de usuários ativos por semana, US$ 100 milhões captados e um valor de mercado superior a US$ 1 bilhão. Isso mesmo, o aplicativo já se tornou um unicórnio. E aqui estamos falando de um unicórnio raiz, senhoras e senhores. Daqueles que não têm um centavo de receita, nem têm expectativa de fazer por um bom tempo. Estão construindo para ver que bicho vai dar.

A trajetória foi turbinada pelos aportes da a16z, que liderou as rodadas de série A, em maio de 2020, e B no fim de janeiro. Funcionários e sócios da gestora, incluindo os fundadores Marc Andreessen e Ben Horowitz, vira e mexe estão falando por lá. Minha teoria é que a gestora quer promover o uso do Clubhouse dentro de sua estratégia de investir em mídia.

Mas e aí?

Ainda é cedo pra cravar qualquer previsão sobre o futuro do aplicativo. Ele tem uma característica interessante, que é permitir encontros ocasionais muito parecidos com os que acontecem na vida real – quando você está em um evento e vê uma rodinha de pessoas conversando e resolve participar também. Até os atropelos entre os participantes na hora de falar, pra mim, parecem bem naturais, como em uma conversa ao vivo. O fato de ser apenas áudio também é interessante – você não tem que ficar se arrumando, nem arrumando a bagunça da sala ou do escritório onde você está. E o consumo da conexão à internet é bem baixo.

O número de usuários está crescendo rápido, mas ainda não é tão grande, então a dinâmica das salas funciona. Fico me perguntando como será isso quando o aplicativo tiver 50, 100, 500 milhões de usuários ao redor do mundo. Será que o clima “intimista” vai se manter? E quando a pandemia acabar? Será que vai fazer sentido usar um aplicativo separado para essas conversas de áudio? Ainda mais com concorrentes começando a imitar a funcionalidade – o Telegram já tem o Voice Chats. E o pessoal de Menlo Park certamente está preparando alguma coisa nessa linha – aposto que deve ter gente na engenharia/marketing do WhatsApp ou do Instagram falando “eu disse que isso seria legal e ninguém me ouviu antes! agora temos que correr atrás” – ou até fazendo as contas para ver se vale a pena comprar o treco todo de uma vez. Por enquanto acho que vale como um experimento interessante para quem gosta de testar as “novas novidades”, ou está cansado da mesmice (e das chatices) das outras redes.

Já vimos a história da rede que surge de repente, cresce e vira um colosso. E ela é muito emplogante, animadora. Mas também já vimos o serviço que cresce, mas morre tempos depois porque as pessoas se distraem com uma coisa nova. Grana ajuda (e muito), mas a verdade é que está todo mundo mais perto de virar um Orkut do que um novo Facebook.

Jornalista com mais de 15 anos de experiência acompanhando os mundos da tecnologia e da inovação, com passagens pelo DCI, Sebrae-SP, IT Mídia e Valor Econômico. Fundador e Editor-Chefe do Startups.com.br.