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Há quase uma década, David Villalva trabalhava como vendedor na loja de uma operadora de celular, em um shopping na zona oeste de São Paulo. Em uma das suas interações com clientes, surgiu a semente que se tornaria a Digitalidade, escola de treinamento digital para o público 50+.

Durante o tempo em que trabalhou na operadora, David se tornou o atendente preferido do público sênior que o procurava, por conta de sua paciência e habilidade de ensinar estes clientes a usar tecnologia, incluindo as funcionalidades do smartphone. Em uma destas interações, uma cliente desabafou, frustrada: “Por que não existe um lugar para ensinar a gente a usar essas coisas?”

Impactado com aquela conversa com a Dona Alda, o empreendedor passou a considerar as possibilidades de criar um projeto que atendesse o público sênior. “Eu já tinha uma percepção muito apurada das dificuldades e necessidades daquele público. Percebi que este segmento precisava de mais ajuda, queria mais orientações. Ao mesmo tempo, também era o público com o maior tíquete médio de consumo na época”, conta David, em entrevista ao Startups.

Diferentemente do público mais jovem, que já nasceu em contexto digital, as demandas do publico mais velho são diferentes, ressalta o empreendedor. “[Os sêniores] viram a fita cassete sendo substituída pelo DVD, a ficha do orelhão dando lugar ao cartão. Mas depois de um certo momento, lá pelos idos de 2008 estas etapas da evolução se tornaram mais imperceptíveis e em uma velocidade que significa que estes grandes marcos desapareceram”, pontua.

Em meio a um período turbulento em que enfrentou a depressão e a pressão relacionada a metas e atendimento no setor de telefonia, David evoluiu a ideia, fazendo trabalhos voluntários e experimentando abordagens de treinamento para seu público alvo.

Ao lembrar de uma conversa que teve com o amigo Fernando em um momento em que a vida estava muito difícil, o fundador descreve a sensação de, mesmo com as dificuldades, de ter se apaixonado por algo: a atuação junto ao público 50+. “Concluí que, além da Digitalidade ajudar pessoas que estão passando por uma situação muito complicada com grandes mudanças, ela também me salvaria”, diz o empreendedor.

Com a oferta no ar e mais de 200 alunos atendidos, David hoje reforça sua tese, e tem uma meta ambiciosa. “Estabeleci que, em cinco anos, quero ser como a Escola Conquer, só que do público maduro”, diz o empreendedor, que tem a escola de negócios da nova economia como referência em termos de marca e conteúdo. “Quando alguém falar de cursos de tecnologia para o público 50+, quero que lembrem imediatamente da Digitalidade”, diz o fundador.

Amplo mercado

O mercado endereçável da Digitalidade é a parcela da população de mais de 37 milhões de idosos nos quatro cantos do país. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, do Comitê Gestor da Internet, 58% dos idosos brasileiros acessam a internet através de smartphones; entre os que não utilizam a internet, 72% afirmam que o motivo é a falta de conhecimento de como usar eletrônicos.

Com o intuito de preparar idosos com competências digitais e habilidades tecnológicas, a Digitalidade tem cursos que cobrem temas básicos desde utilização de smartphones até treinamentos de influenciador digital e fotografia utilizando o celular para maduros e um programa de mentoria com foco em transformação e aceleração digital para empreendedores 50+. a edtech também oferece uma assistente, que fornece suporte a idosos no uso de tecnologias, incluindo hardware e software.

“Percebemos que existe um público [maduro] que quer ficar ativo no mercado de trabalho ou que quer gerar renda, se recolocar ou se manter no mercado de trabalho. E do outro lado, também entendemos que há uma maior necessidade de cursos, de desenvolver novas habilidades, hobbies e se manter ativo de forma geral”, pontua David.

A oferta atual é o resultado de múltiplas investigações e provas de conceito junto ao público-alvo da startup, que buscou um aporte em 2020 para desenvolver uma metodologia própria de ensino para maduros, e aprimorar a tecnologia. David cita as complexidades envolvidas no desenvolvimento de suporte para certos perfis de idosos, que podem recorrer ao suporte para um tema e retornar pouco tempo depois com a mesma demanda, por exemplo.

“É preciso muito tempo, pesquisa, planejamento e muita percepção para atender este perfil de cliente. Muitas vezes, precisamos não só descrever e ensinar, mas também nos colocarmos no lugar destas pessoas, e nosso método foca nessa questão”, pontua David.

Novo aporte no horizonte

O fundador acrescenta que atualmente está levantando um novo aporte: a ideia é buscar R$400mil por cerca de 10% da startup. É possível que o equity crowdfunding também entre no mix – David ainda precisa escolher a plataforma, que pode ser a Kria, ou a CapTable. O capital adicional deve ajudar a Digitalidade a escalar a assistente, produto principal da edtech, com um bot além da opção de atendimento humano, que é o formato atualmente utilizado.

“Saí da fase de MVP, testei a minha tese, confirmei que há uma demanda, e que a minha solução atende a essa demanda. Minha fase atual tem foco em gerar crescimento com esses produtos e serviços”, ressalta o empreendedor. Segundo David, a startup tem uma baixa rotatividade, além de um grande potencial de cross-sell: por exemplo, os alunos que compram os cursos (cujo valor varia de R$ 19 até R$ 1mil, como é o caso da aceleração) também acabam comprando o suporte.

O fundador e CEO da Digitalidade, David Villalva, com uma das versões iniciais da plataforma

Um dos principais desafios da Digitalidade, segundo David, é relacionado à construção de marca e comunicação. “O público 50+ compra na Magazine Luiza, por exemplo, por conhecer a empresa, saber onde é, na loja que tem um endereço. Uma startup focada neste público, por outro lado, é desconhecida [pelos idosos], que podem não se sentir confortáveis em colocar seus dados de cartão e comprar um curso em uma plataforma digital”, frisa.

Uma das formas que a edtech pretende endereçar esta complexidade é trabalhando com terceiros. A startup está em discussões com organizações como uma empresa do ramo de seguros, um banco de médio porte e uma operadora de saúde. “Entendemos que talvez distribuir os nossos serviços através de outros canais pode nos ajudar na nossa comunicação e até em desenvolver a confiabilidade do público em adquirir o serviço”, aponta.

Se em cinco anos, a meta é se tornar algo como a Conquer, o objetivo para daqui um ano é ter feito progresso rumo a este objetivo. “Acredito que não estaremos com essa meta final consolidada, mas que teremos captado o investimento que buscamos e estaremos tracionando nossos produtos e acompanhando o avanço do nosso segmento. As startups atuando no chamado mercado prateado estão tentando se antecipar à estas mudanças, mas também se posicionando para quando estas mudanças efetivamente chegarem”, conclui.

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