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Não, você não leu errado. Uma ONG adquiriu uma startup. A Labor Educacional, organização sem fins lucrativos que trabalha com a formação continuada de jovens, educadores, gestores escolares e técnicos de Secretarias de Educação, absorveu a marca e os ativos da Extraclass, edtech especializada na capacitação online de professores. O valor da transação não foi divulgado.

A incorporação acontece no aniversário de 30 anos da Labor. Fundada em 1991 sob a proposta de promover uma educação de melhor qualidade no Brasil, a entidade quer modernizar a gestão e acelerar sua transformação digital, além de diversificar sua atuação, lançando uma vertical de cursos online. A projeção é capacitar mais de 5.370 profissionais e impactar 430 mil alunos das redes pública e privada em 3 anos. 

“Somos uma ONG com muitos anos de tradição, mas temos que olhar para o futuro e atualizar os processos. A Extraclass chega justamente para isso”, diz Marco Leone Fernandes, diretor institucional da Labor. Segundo o executivo, a transação não tem valores expressivos. “ONGs não têm a mentalidade de aquisição, até porque a Labor não tem lucro. O valor foi irrelevante comparado ao que seria uma aquisição de mercado privado. Vemos isso muito mais como uma união para somar os projetos e apoiar o ecossistema.”

A incorporação da edtech (e de suas tecnologias) também prevê acelerar o ciclo de vendas. Antes, a Labor levava até 1 ano para fechar as negociações com as escolas e secretarias de ensino. A operação também aumenta a receita com cursos online, recursos que serão revertidos para novos projetos e iniciativas educacionais. Em 2022 a Labor Educacional projeta crescer 30% em relação ao ano passado, quando apoiou 528 escolas, 3.796 professores, 930 coordenadores, 108 gestores e 239 mil alunos.

Por que a Extraclass

Mais do que os ativos, o que mais chamou a atenção da ONG foi a liderança da Extraclass. Carolina Fonseca fundou a edtech em 2017, mas antes de empreender foi professora de ciências em Minas Gerais e mentora de projetos para o ensino fundamental na Fiap School, em São Paulo.

“Percebi que os professores aplicavam na sala de aula aquilo que aprendiam na graduação, mas que muitas vezes isso era distante da realidade dos jovens. Por isso, a aula não era tão interessante e o aluno não gostava de estudar. Foi quando comecei a pesquisar estratégias inovadoras de ensino”, explica a educadora.

Com a Extraclass, ela compartilhava cursos de ferramentas digitais para o ensino, metodologia ativa e até criação de videoaulas. Em 2020, a companhia capacitou 2.766 professores e ofereceu suporte profissional para 15.736 educadores durante a pandemia.

Conheceu a Labor por uma amiga em comum, na época em que a ONG procurava alguém para o cargo de diretor-executivo. “Queríamos ela no time porque, além de ser empreendedora, já tinha vivido a parte pedagógica como professora e a parte administrativa como diretora da Extraclass. Se ela não topasse vir para a Labor, a incorporação nos interessaria muito menos”, afirma Marco.

Segundo Carolina, a vantagem de se juntar à Labor é poder impactar mais alunos, professores e escolas, principalmente da rede pública brasileira – apenas 14% delas tinham estruturas para o EaD em 2019, segundo uma pesquisa TIC Educação, do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação). 

“Qualidade de educação, equidade e inclusão são temas que defendo muito. Com a Labor esse trabalho ganha mais força, gera mais impacto. Mais do que uma questão financeira, a fusão valeu a pena por um propósito pessoal de transformar a educação e deixar um legado”, diz a executiva.

Próximos passos

Segundo Marco, a união com a Extraclass, concluída no final do ano passado, já começou a trazer resultados, principalmente na comunicação. A Labor Educacional reforçou a presença nas redes sociais e melhorou a apresentação do site, para que o usuário entendesse com facilidade quais são os projetos e objetivos da ONG.

A Labor, que atuava por meio das escolas e Secretarias de ensino, agora passa a atuar no nível do educador, ampliando o modelo de educação e chegando diretamente aos professores. A expectativa é se tornar referência em formação de educadores do ensino básico, promover a transformação em escolas públicas e melhorar a aprendizagem dos estudantes.

“Seguimos sendo uma organização sem fins lucrativos e não temos a pretensão de competir no mercado de edtech”, afirma Marco. Ainda assim, o executivo não descarta a possibilidade de, no futuro, fazer um spin-off dentro da ONG, caso a entidade desenvolva alguma solução com fins comerciais.

O próximo passo é adotar ferramentas para modernizar a gestão e melhorar a transparência e as iniciativas pedagógicas. “Vamos automatizar os processos e apostar na transformação digital para termos uma organização totalmente inovadora, preparada para solucionar os desafios educacionais, em parceria com escolas públicas e privadas”, afirma o diretor.

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