fbpx
Compartilhe

Não é nenhuma surpresa que a Voltz investiu R$ 12 milhões para ter a sua própria fábrica de motos elétricas na Zona Franca de Manaus. O intuito da empresa é usufruir das benesses fiscais da região e otimizar seu – até então conturbado – ritmo de fabricação e entrega de produtos aos clientes. Entretanto, a fábrica também é uma aposta no futuro: a montadora quer ser a referência em mobilidade elétrica no país, e vai investir mais para atingir este objetivo.

Para mostrar mais de perto como pretende seguir com o plano, a empresa promoveu uma visita à nova planta na capital amazonense. O amplo espaço de 11 mil metros quadrados está equipado com duas linhas de produção. De uma delas, sairão as scooters EV1 Sport e da outra, as motos street EVS.

Mas tem espaço sobrando nos dois galpões que compõem a área da fábrica, e em breve uma terceira linha será adicionada. Será a esteira do triciclo Miles, voltado ao mercado B2B para atender empresas de logística na chamada “última milha”.

A produção do Miles já iniciará com um contrato grande: a Ultragaz fechou, por um valor não divulgado, a aquisição de 500 triciclos para fazer a entrega de botijões. A distribuidora é parte do Grupo Ultra, que controla os postos Ipiranga e colocou R$ 5 milhões na Voltz ano passado – outros R$ 95 milhões foram investidos pela Creditas.

Na fábrica, um detalhe que salta aos olhos é o tamanho reduzido das linhas de produção em relação a uma montadora tradicional. De acordo com o diretor de operações da planta, Adelino Cardoso, construir uma moto elétrica compreende um número menor de etapas em relação a uma moto de combustão. “Para fazer uma de nossas motos, usamos menos de 100 parafusos, no total”, detalhou Adelino, para fazer uma comparação – uma moto convencional usa mais de 200.

Vendo de perto a montagem da EV1 Sport

Além disso, a estrutura enxuta também se reflete no número de colaboradores. A planta iniciará oficialmente sua produção no dia 06/06, contando com 77 colaboradores e um volume de fabricação inicial estimado de 800 a 1 mil motos. Até o final do ano, a meta é chegar a 150 colaboradores e 5 mil motos/mês, já chegando a um terço da capacidade produtiva total da planta.

Adelino chegou na Voltz em 2021, com um histórico renomado no mercado de duas rodas. Ele passou dez anos à frente da fábrica da Harley Davidson em Manaus, ajudando na revitalização da marca junto aos clientes nacionais durante o período. Ao chegar na Voltz, alinhado com o CEO Renato Villar, o diretor não poupou esforços para trazer do mercado internacional o que mais há de avançado para a montadora.

“Aplicamos práticas de sucesso das fábricas nacionais aos equipamentos e o modelo de fabricação de motos elétricas, um padrão que não tem por lá”, destacou Adelino. Ao falar “lá”, ele se refere à China, onde estão alguns dos maiores concorrentes atuais do segmento.

Não que a China não esteja envolvida nas motos da Voltz: diversos componentes (incluindo o principal, a bateria) ainda fazem parte da montagem. Contudo, para o diretor, o plano ao estar inserido na Zona Franca é se aproveitar do ecossistema para aumentar cada vez mais o número de componentes nacionalizados, inclusive na alimentação dos veículos. “Já existe um PPB (Processo Produtivo Básico) em andamento em Manaus para a fabricação de baterias de lítio”, afirmou.

A EVS, modelo street da Voltz

Segundo Adelino, a mudança ajudará a Voltz a manter preços competitivos, evitando a necessidade de aumentar preços frente à alta cambial. Hoje uma EV1 Sport custa a partir de R$ 14,9 mil, enquanto a EVS sai por pelo menos R$ 19,9 mil na sua versão com uma bateria.

Antes de expandir, colocar em dia

Pelo menos não dá pra dizer que a Voltz não está sendo… errr, franca. A meta inicial da produção em Manaus é colocar a demanda represada em dia. De acordo com Adelino, cerca de 8 mil consumidores estão na espera por uma moto elétrica da marca, e o objetivo é zerar essa lista nos próximos três a quatro meses.

A Voltz teve que se “virar nos 30” durante a pandemia em função de dificuldades na fabricação e entrega de seus modelos. Frente à reclamação de consumidores insatisfeitos, ela chegou a desembolsar mais de R$ 2 milhões em vouchers de Uber para apaziguar os ânimos de quem não gostou dos atrasos.

Segundo Manoel Fonseca, sócio e diretor de marketing da empresa, o perrengue foi válido para a empresa aprender com os erros, inclusive para não dar passos maiores que as pernas na criação da fábrica em Manaus. “Ainda somos amadores (em relação às montadoras grandes), mas agora não podemos, e não vamos mais errar”, afirmou.

Para atingir este objetivo, a Voltz pretende investir na construção de um segundo centro de distribuição na região Sudeste –  ela já conta com um na sua cidade natal, Recife. O estado ainda não foi escolhido, mas de acordo com a montadora, Minas é o concorrente mais forte até o momento.

Entrada da fábrica da Voltz em Manaus

Com essa estrutura, o grande plano é conseguir vender motos a pronta entrega a partir de outubro. “Seguimos vendendo dentro do modelo e-commerce, mas o tempo de entrega será apenas do tempo de despachar a moto de um de nossos CDs até a casa do comprador, coisa de sete a dez dias”, explica Manoel.

Novas lojas, novas motos

A Voltz ainda está com dinheiro no caixa, e segundo o diretor de marketing, ele vai ser bem utilizado. Um dos planos é aumentar a sua cobertura física no país, tanto em lojas conceito (flagships) nos maiores centros, quanto em pop-up stores (lojas temporárias) em cidades menores, mas com potencial comercial para a marca.

Até o final do ano a meta é ter 16 flagships e 100 pop-ups nas regiões sudeste, nordeste, sul e centro-oeste – 4 flagships e 25 pop-ups por região. Atualmente, ela já conta com 9 flagships e 44 pop-ups. Para cumprir esta meta, o aporte do ano passado será utilizado. “Uns bons R$ 10 milhões vão ser investidos [na expansão]”, revelou Manoel.

Embora não tenha revelado valores, o executivo também destacou que a empresa está investindo no desenvolvimento de novos modelos, incluindo linhas inéditas, como trail e racing. O movimento marcará a entrada da empresa também no mercado de tickets mais altos. “Serão motos mais caras e de alto desempenho, mas quando o consumidor comparar com uma Ducati, será mais em conta”, afirmou Manoel.

Espaço interno da montadora, com lugar para novas linhas de produção

O diretor não detalhes sobre quando estas novas motos chegarão ao mercado, mas revelou que algumas delas já estão na fase de prototipagem. Contudo, em outubro um outro produto novo chegará na praça: a scooter EV1 Sport se tornará EV1 Plus, incluindo uma suíte tecnológica totalmente nova.

Uma startup de tecnologia

A Voltz não quer ser apenas uma montadora, mas sim uma empresa de tecnologia. Sim, a gente sabe que é um discurso batido, aquela história para agregar valor à marca, mas a startup está tomando atitudes para bancar o posicionamento. A EV1 Plus é um exemplo disso: a nova scooter virá equipada com recursos de ADAS (sigla em inglês para Sistemas Avançados de Assistência ao Condutor).

Isso significa que a moto contará com câmeras e sensores que analisam os arredores da moto, detectando quando ela está no ponto cego de um motorista adjacente. A moto também sinalizará limites de velocidade em uma via, entre outros recursos de apoio ao motorista. A partir da nova EV1, todas as motos da Voltz terão este sistema de apoio no app usado pelos condutores.

Além disso, estas e outras tecnologias também devem ser empregadas na estratégia B2B da companhia, entrando até em rota de colisão com desenvolvedoras de sistemas de gestão de frotas. Perguntado se isso poderia se tornar um modelo adicional de receita para a montadora, Manoel desconversou, mas não descartou a possibilidade.

Por falar em modelo de receita, uma aposta da montadora é a Estação Voltz, armários em que condutores podem rapidamente trocar a bateria vazia de sua moto por uma carregada, utilizando o app Voltz. A tecnologia foi iniciada em um piloto com o iFood, em que os motoboys tiveram a opção de comprar o modelo EVS Work por um preço reduzido: R$ 9.999.

Por que tão barato? A moto foi vendida sem a bateria, componente que representa 40% do valor total. Ela vem com uma bateria “emprestada” pela montadora e que pode ser trocada nas estações de recarga. Para ter esse acesso, é necessário pagar uma mensalidade, em planos que variam de acordo com a quilometragem rodada. “É uma alternativa que dá uma autonomia praticamente infinita aos condutores”, destaca Manoel.

Segundo o diretor de marketing, ao longo de 2022 a empresa investirá na expansão de postos com a Estação Voltz. Em breve, a opção também deverá ser estendida aos consumidores finais, inclusive com a opção de comprar motos sem bateria. “Nosso foco é redefinir o futuro da mobilidade no país”, disparou.

(O jornalista viajou a Manaus a convite da Voltz)

OPINIÃO

Veja todas as opiniões