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A aceleradora Y Combinator, um dos oráculos do mercado de startups no Vale do Silício – e também paparicada pelos entusiastas do ecossistema de inovação aqui no Brasil, tem más notícias. Em uma carta enviada aos fundadores das startups no seu portfólio, a dica é: prepare-se para o pior, pois o mercado será cruel. “Ninguém pode prever o quão ruim a economia pode ficar, mas as coisas não estão boas”, disparou a Y Combinator, em sua 1ª consideração sobre o atual cenário.

A carta, com o nada animador título de “Economic Downturn” (algo como “economia em desaceleração”), pede aos fundadores que busquem formas de suas empresas chegarem ao status de “Default Alive”, ou seja, que elas encontrem uma forma de se manterem vivas com os recursos que já possuem em caixa. Para aquelas que não vislumbram essa possibilidade, a sugestão é levantar investimentos com atuais ou novos investidores o mais rápido possível, sugerindo que o tempo de distribuição de cheques está chegando a um fim abrupto. “Independentemente da sua capacidade de levantar capital, é sua responsabilidade garantir que sua companhia irá sobreviver se não for possível captar nos próximos 24 meses”, alerta a YC. A redução de custos e o prolongamento do tempo de uso do caixa deve acontecer rápido: dentro dos próximos 30 dias.

Por que??????

O mercado de ações está em polvorosa por conta da alta dos juros para combater a inflação. Com o governo pagando mais em seus títulos, há um movimento de busca por opções de investimento mais seguras. A redução da exposição ao risco já fez a ação de empresas como Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google, grupo conhecido como FANNG, que sempre pareceu ser certeza de crescimento e valorização, recuarem de 20% a 60% no acumulado do ano. Até o Nubank, que estreou na bolsa em dezembro/21 como o banco mais valioso da América Latina, hoje vale um terço do Itaú.

Mas o que isso tem a ver com o mercado de startups? Tudo. Apesar de caminhar separado, o mercado de venture capital se mira muito no mercado público como referência para avaliar as empresas. Além disso, o movimento de aversão ao risco acaba sendo o mesmo. Melhor investir em renda fixa do que em negócios que ninguém sabe se vai dar certo. “Os investidores de venture capital terão mais trabalho para levantar capital e seus financiadores vão esperar mais disciplina nos investimentos. Como resultado, durante períodos de desaceleração, mesmo os fundos mais renomados com muito dinheiro reduzem a velocidade de alocação de capital (e fundos menos preparados geralmente param de investir ou morrem)”, dispara a YC.

Isso leva a uma menor competição por deals, que resulta em valuations menores, rodadas com tamanhos menores e menos negócios fechados. “Nestas situações, investidores também costumam reservar mais dinheiro para as suas empresas que estão performando melhor, o que reduz ainda mais o número de novos investimentos”, completa a aceleradora. A avaliação é que a desaceleração terá um impacto desproporcional em startups internacionais, nas que tenham muitos ativos, baixas margens, sejam de hardtech e aquelas que tenha queima acelerada de caixa e um caminho ainda longo para a geração de receita.

O cenário de menor liquidez e de ajustes já está sendo sentido com rodadas como a da Klarna acontecendo com com valuation consideravelmente menor. Em conversas nas últimas semanas, o Startups tem ouvido que as negociações das rodadas estão se alongando e que o crescimento a todo custo está sendo deixado de lado nas análises. A geração de lucro, ou pelo menos a sustentabilidade do negócio, está se tornando a peça principal na avaliação.

A YC ainda faz um alerta: “entenda que o número de reuniões que os investidores fazem não diminui na mesma proporção que a redução dos investimentos. É fácil se enganar pensando que um fundo está de fato investindo quando ele não está”!

Para não dizer que só falou de caos, a YC termina sua carta com a velha máxima do “toda crise é uma oportunidade.” “Lembre-se que muitos dos seus competidores não vão se planejar corretamente, vão manter a queima de caixa e só vão perceber que estão ferrados quando tentarem levantar sua próxima rodada. Você pode, geralmente, conquistar uma significativa fatia de mercado durante uma crise econômica simplesmente por permanecer vivo”, finaliza a aceleradora.

E aqui no Brasil?

Quanto às terras canarinhas, de certa forma já deu pra perceber que a festa ficou bem menos animada. Unicórnios locais – um exemplo é a Loft – estão receosos em falar de IPO no momento, provavelmente já atentos ao mercado que já congelou e no impacto que a instabilidade pode trazer aos seus valuations em nova captações.

Além disso, outras startups estão partindo para decisões ainda mais drásticas, recorrendo ao discurso da “reorganização interna” para lidar com um mercado menos favorável. Pouco tempo depois de aparecer na mídia com o plano de “dominar o mercado de restaurantes”, com o caixa forrado com R$ 80 milhões vindos de uma rodada liderada pela Tiger Global, a plataforma de gestão Zak pegou muitos de surpresa ao demitir na semana passada cerca de 40% de sua força de trabalho. Foi uma demissão em massa, feita via videochamada. Outros nomes grandes também passaram por cenários semelhantes: o QuintoAndar teve 57 demitidos, a própria Loft afastou 159 (alegando ser resultado da fusão com a CrediHome) e a Facily desligou 260 pessoas.

O ecossistema local já tem números que mostram que o inverno chegou: segundo dados do Distrito, nos primeiros meses de 2022, foi registrado um recuo de 4% no volume de investimentos na comparação com os 4 primeiros meses de 2021, num total de US$ 2,3 bilhões aportados. Em termos de negócio fechados, foram quase 13% a menos, com 238 rodadas.

Além disso, o ritmo de surgimento novos unicórnios deu uma boa desacelerada em 2022. Se em 2021 o Brasil teve um desempenho triunfal com 9 marcas entrando para o clube do US$ 1 bilhão em valuation, até este mês de maio estamos com apenas duas: a fintech Dock e o neobanco Neon.

A visão austera do cenário atual vem inclusive de quem faz o seu nome investindo em novos negócios. Em uma publicação recente em seu perfil do Linkedin, o fundador e CEO da StartSe, Junior Borneli, encarnou o Clodovil e reservou palavras duras para afirmar que o mundo dos valuations fantásticos virou “uma festa vazia”. “A bolha não estourou. Ela esvaziou”, cravou o executivo, em um post com mais de 2,2 mil likes. Pelo jeito, esta é uma visão compartilhada por muitos.

A história se repete

Em artigo para o Startups publicado nesta semana, o colunista Diego Barreto, VP do iFood, destacou que a teoria schumpteriana dos ciclos prevê exatamente períodos de prosperidade e retração alternados – e vários dos ciclos econômicos derivados se mostraram modelos bastante confiáveis. “O princípio é sempre o mesmo: todo boom é insustentável. Desenhando, é uma parábola em que os tempos de paz são seguidos de cabeças cortadas. Criar e destruir, sucessivamente. Saber ver o amanhã é o que faz os vencedores”, destacou.

Segundo ele, que mais vai sofrer neste momento é quem não for antifrágil. “Antifrágeis, como muitas outras, são exemplos de sucesso que independem dos humores do mercado. Superaram os tempos difíceis e se aprimoraram, ficando mais preparadas para o inverno que se aproxima”, destacou.

(com Gustavo Brigatto)

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