Você, leitor, provavelmente já ouviu falar que a inteligência artificial poderia “roubar” empregos. No meio artístico, essa preocupação se intensifica, pois muitos artistas temem que a tecnologia não apenas substitua profissionais, mas também se aproprie indevidamente de obras já existentes.
E claro, a recente polêmica da OpenAI com o Studio Ghibli abriu brecha para novas críticas por parte dos artistas. Para entender melhor, desde a última terça-feira (25), o ChatGPT permite que seus usuários enviem imagens para serem “transformadas” no estilo do famoso Studio Ghibli (responsável por obras como Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar, O Serviço de Entregas da Kiki e Meu Amigo Totoro). Com isso, diversos internautas participaram da trend “você como um personagem do Studio Ghibli“, onde upavam suas fotos para a IA criar um desenho em cima delas.
Com a repercussão, voltou à tona uma antiga fala do fundador do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki, que em 2016, disse ter ficado “totalmente enojado” ao ver a demonstração de um vídeo criado com inteligência artificial. Oficialmente, o Studio Ghibli não se posicionou contra o recurso lançado pela companhia que fez a maior captação de uma startup da história.
O Impacto da Inteligência Artificial no Mundo Artístico
A chama se reacendeu com a situação, mas toda essa briga não é de hoje. Para dar um breve contexto, a discussão ganhou força em 2022, quando o DeviantArt (site que já foi uma grande referência do meio artístico) lançou o DreamUp, uma ferramenta que gera imagens de inteligência artificial.
Na época, houveram suspeitas de que a tecnologia utilizou de mais de 20 anos de postagens dos artistas para treinar seu modelo e, sendo assim, o lançamento do DreamUp levou à inclusão do DeviantArt em um processo de violação de direitos autorais, junto com a Stability AI e o Midjourney. Além disso, diversos artistas protestaram contra o uso de inteligência artificial como um todo.
Os protestos não levaram a lugar nenhum – como já era de se esperar. O DeviantArt ficou queimado e perdeu prestígio como uma plataforma para artistas. Hoje está lotado de imagens genéricas feitas por inteligência artificial.
A verdade é dura, mas precisa ser dita: as empresas que estão trabalhando com inteligência artificial não vão se importar com “alguns revoltados” enquanto ganharem milhões de dólares ao manterem suas IAs ativas. A tecnologia chegou para ficar, e parece ser uma evolução tão grande quanto a própria internet há algumas décadas.
Não me leve a mal pelo que estou dizendo. Quando não estou escrevendo, como jornalista, estou desenhando e fazendo artes estilo mangá. Logo, também sou artista. Mas penso que não adianta lutar contra um movimento que já chegou e se estabeleceu no mercado — afinal, toda big tech quer ter sua própria inteligência artificial, seja um gerador de imagens ou um chatbot.
Claro que é certo exigir regulamentações da ferramenta e que a IA não faça roubo de artes existentes. Eu concordo e acredito que as empresas devam, sim, tomar responsabilidade jurídica a respeito de direitos autorais. Mas negar a evolução me parece uma péssima ideia — até porque isso não fará a inteligência artificial parar.
Fotografia e a Adaptação às Novas Tecnologias
Para se ter um comparativo histórico, no século XIX, muitos artistas repudiavam a fotografia em favor da pintura. Isso porque antes das máquinas fotográficas chegarem, a pintura era a única forma de capturar um momento ou, até mesmo, o retrato de alguém.
Diante desse cenário, enquanto alguns artistas temiam a substituição da pintura pela fotografia, outros resolveram se adaptar. Assim, surgiram novos estilos e movimentos artísticos, já que agora não fazia mais sentido tentar pintar a realidade se a câmera fotográfica já fazia isso.
A fotografia não parou de evoluir, e hoje temos mais celulares com câmeras do que câmeras sozinhas. Um filme gravado com dois celulares ganhou um Oscar! Algo que antes foi visto com repulsa, tomou forma e, inclusive, se consolidou também como arte.
Diante desse comparativo, creio que é preciso se adaptar às novas tecnologias conforme surgem, e não abominá-las. Caso você seja artista e esteja lendo isso, que tal tentar dar um comando para o ChatGPT e aprender algo novo? Quem sabe, pedir um tutorial de como desenhar mãos, por exemplo?
O Valor da Criatividade Humana na Era da IA
Com tudo isso dito, voltamos ao ponto principal deste artigo opinativo: a IA não vai roubar seu emprego. A menos que você seja um profissional medíocre.
Se você acha que seu trabalho é tão pouco a ponto de poder ser substituído por um robô que cria mãos com seis dedos, sinto lhe dizer, mas você não transmite confiança no seu trabalho. Quando digo isso, estou lhe dizendo para valorizar mais o que faz (sendo arte ou não, já que a IA “ameaça” diversas áreas diferentes).
A inteligência artificial é capaz de muitas coisas, sim. Mas a tecnologia nunca terá uma característica essencialmente humana: criatividade. Seja para criar uma arte ou um texto, a inteligência artificial jamais será capaz de transmitir emoções sem parecer artificial: é sempre a mesma coisa genérica, como se você a encarasse e visse apenas um vazio imenso e sem emoções.
O ponto principal aqui é a valorização da arte, coisa que, culturalmente, não acontece muito antes da inteligência artificial. Muitas vezes, podemos reparar que quem usa IA para criar ilustrações é a mesma pessoa que, lá atrás, não buscava um artista profissional ou queria pagar um valor minúsculo para um desenhista, descredibilizando totalmente seu trabalho.
Mas a IA, por si só, nunca será uma substituta. Mas poderá, sim, acarretar (re)evoluções em diversos setores.
A Ameaça Real: Modismo ou Inovação?
Vejo que muitos artistas se sentem ameaçados pelas trends crescentes envolvendo inteligência artificial, tendo como exemplo a recente do Studio Ghibli. Em postagens do tipo, sempre há artistas questionando o porquê de tal pessoa ter usado IA no lugar de ter contratado um desenhista profissional.
Diante disso, fica o questionamento: será que o Seu Zé, que trabalha em escala 6×1 como estoquista de mercado e quer participar de uma trend do TikTok, realmente é uma ameaça ao trabalho dos artistas?
É preciso ter em mente que, para muitos, arte é um luxo. De acordo com uma pesquisa de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 60% dos brasileiros vive com até um salário mínimo por mês. Entre aluguel, alimentação, conta de luz e água, muitas vezes não sobra para investir em arte. Particularmente, vejo que ter essa perspectiva de corte social é importante.
Sem falar que, muitas vezes, quem participa da trend vai pela curiosidade do momento. Essa pessoa provavelmente já não pagaria um artista para conseguir se ver em versão funko ou anime. Sendo assim, não vejo esses filtros como uma ameaça, e sim como um modismo do momento — até porque daqui a duas semanas a trend já será outra e os internautas esquecerão disso.