O mercado de fusões e aquisições (M&As) no setor de tecnologia brasileiro começou 2025 em ritmo acelerado. De acordo com o “M&A Deals Report 2025 H1”, da Questum, o número de transações cresceu 71,1% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado. O volume já representa 72,45% de todas as operações realizadas ao longo de 2024.
Segundo Rafael Assunção, managing partner da Questum, esse avanço é puxado pela alta demanda, com um número crescente de empresas apostando em aquisições para resolver desafios estratégicos. “A despeito da taxa de juros super alta e de outras questões macro, tem mais apetite no mercado. Tem muito mais gente com perfis diferentes, que nunca tinham comprado antes, buscando startups para preencher lacunas em seus modelos de negócio”, avalia.
O relatório aponta uma mudança no perfil dos agentes de mercado. Os chamados compradores seriais, que lideraram as transações no período pré-pandemia, perderam protagonismo, dando lugar a um cenário mais pulverizado. Em vez de uma concentração nas mãos de poucos grupos consolidados, há uma diversidade maior de empresas realizando ao menos uma aquisição.
“Hoje, há uma centena de empresas ativas em aquisições. Isso é muito diferente de cinco anos atrás, quando os compradores eram praticamente sempre os mesmos: Totvs, Linx, LWSA (antiga Locaweb). Agora, há diversas companhias que enxergam nas startups soluções prontas para acelerar seu crescimento”, comenta Rafael.
Setores em alta
A inteligência artificial tem ganhado protagonismo nas estratégias de M&A e já influencia de forma decisiva a dinâmica do setor. Startups com domínio técnico em IA e aplicações práticas (seja em automação, personalização, análise de dados ou ganho de eficiência) estão entre os ativos mais cobiçados, segundo o relatório.
Rafael acredita que essa tendência deve se intensificar nos próximos semestres. “Todas as empresas médias ou grandes no Brasil querem comprar alguma startup de IA. A demanda é enorme e já vemos casos de early exit, porque a urgência das grandes empresas em adotar IA é maior que o tempo de maturação das startups”, observa.
Segundo o executivo, o apetite é tão forte que, em breve, será necessário categorizar as transações especificamente por envolvimento com IA. “Mesmo quem está comprando uma fintech ou um ERP, na verdade está buscando uma camada de IA aplicada àquele mercado. Em breve, a exceção vai ser quem não trabalha com IA”, pontua.
Outro setor que começa a ganhar espaço nas aquisições é o de cibersegurança. Para Rafael, o aumento das fraudes digitais e o uso indevido da IA para aplicação de golpes tornam o tema ainda mais urgente. “O Brasil é muito digitalizado, mas ao mesmo tempo enfrenta um volume altíssimo de tentativas de fraude. A IA permite cometer crimes em escala, o que amplia a necessidade de soluções robustas de proteção”, afirma. Segundo ele, IA e segurança devem caminhar juntas nos próximos anos, como duas faces da mesma moeda no avanço da transformação digital.
Do lado das empresas adquiridas, os modelos SaaS voltados ao mercado B2B seguem na liderança, impulsionados por sua escalabilidade, previsibilidade de receita e margens atrativas. Os setores que concentraram o maior número de operações foram fintechs, ERP/TI, marketing e vendas, saúde e segurança.
Um dado relevante do relatório mostra que, pela primeira vez, as fintechs superaram as empresas de ERP em volume de transações no semestre. Para Rafael, essa mudança é reflexo de um mercado mais maduro, favorecido por avanços regulatórios liderados pelo Banco Central e pela CVM. “O mercado financeiro segue muito capitalizado, com grandes compradores e demanda elevada. Isso explica o destaque das fintechs no primeiro semestre”, pontua.
Maturidade do ecossistema brasileiro
Um aspecto que permanece estável é a baixa participação de investidores estrangeiros nas operações. Apenas cerca de 6% das transações envolveram compradores de fora do Brasil sem presença local. Para Rafael, esse número não representa uma retração, mas sim uma característica histórica do mercado nacional. “É muito difícil para uma empresa europeia ou norte-americana comprar no Brasil por causa da complexidade trabalhista, tributária e societária. A presença de compradores internacionais é tímida há anos, e continua sendo.”
Diante disso, o país vem se consolidando como um ambiente de consolidação local. As aquisições entre empresas brasileiras têm sido o principal caminho para o crescimento inorgânico, servindo como estratégia para entrada em novos segmentos, ganho de market share e incorporação de novas tecnologias.
O relatório também aponta avanços na maturidade do ecossistema de tecnologia. Os compradores estão mais exigentes e esperam que as startups estejam com a “casa arrumada”, ou seja, com finanças organizadas, boa governança e estrutura jurídica adequada. “Saímos do tempo da pandemia, em que se comprava qualquer coisa. Hoje, a barra está mais alta. E, felizmente, as startups também estão mais preparadas”, diz Rafael.
Ainda assim, há um desequilíbrio entre oferta e demanda. “Tem muita gente interessada em comprar, mas ainda temos poucas startups com tamanho e governança adequadas para atender esse apetite. Mas isso deve evoluir nos próximos anos”, completa.
Expectativas e oportunidades
Para quem empreende, o momento é promissor – desde que exista planejamento. Rafael destaca que a chave para uma saída bem-sucedida está no protagonismo do fundador. “Tudo começa quando o empreendedor define o que quer da vida. Quanto gostaria de vender? Para quem? A partir disso, dá para se preparar e tomar boas decisões, desde resolver pendências trabalhistas e societárias até se aproximar dos compradores certos. O importante é não ser passageiro desse processo.”
A expectativa da Questum é que o segundo semestre mantenha o ritmo atual. Se não houver surpresas no cenário global, o ano pode fechar com resultados históricos. “Estamos num ciclo longo de oportunidades. Se continuarmos nesse ritmo, 2026 pode ter mais de 300 transações. A boa notícia para os empreendedores é: tem muita gente com apetite. Cresça, organize sua empresa e se prepare. Vai ter muita chance de fazer uma saída bem-sucedida nos próximos anos”, conclui.