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* Maria Flávia Souza é diretora da Unidade de Negócios de Auto & Saúde na Take Blip

Todo ano, quando o mês de março vai chegando, a minha agenda, assim como a de diversas mulheres que conheço, é preenchida com pedidos de entrevistas e participação em lives e eventos. Ocupo cargo de direção, o que ainda é um tanto raro no mercado — e não apenas no brasileiro, mas especialmente nele. 

Sim, claro que o espaço que nos é oferecido para falar a respeito da luta das mulheres à mesa de negociação ainda dominada por homens é muito importante. 

E, independentemente do que fazemos, todas nós temos muito o que falar. Executivas, professoras ou médicas, donas de casa, estudantes, advogadas, jovens ou idosas, sem exceção, nossas histórias vão além do dia instituído como Internacional da Mulher. 

A mensagem que eu gostaria de dividir aqui tem a ver com tecnologia e a minha percepção nesse terreno, o qual já fiz o reconhecimento há bons 20 anos e um pouco mais. 

Ao falar um pouco sobre o mundo da inovação e dos algoritmos e, principalmente, de quem faz esses algoritmos, espero trazer mais um elemento de discussão sobre as mulheres, mas não só elas — para pessoas que, igualmente, têm pouco espaço e poder de decisão nas empresas e na sociedade em geral. 

O que representa um mundo com pouca diversidade?   

A tecnologia em si não é tendenciosa, mas toda a história por trás dela é. O favoritismo tecnológico por certos dados demográficos levou a uma falta de diversidade entre os programadores e, assim, as máquinas replicam involuntariamente esses preconceitos. A presença majoritária dos mesmos poucos grupos tradicionais se vê no algoritmo de buscadores de pesquisa, em que a palavra “lésbica” até ontem remetia a sites de pornografia. 

A saboneteira com sensor, que não reconhece a mão negra, diz muito. Eu pergunto: será que quem fez a saboneteira é racista? Não, mas provavelmente toda a equipe que desenvolveu a saboneteira é composta por pessoas brancas. Elas testaram com sua cor de pele. Ou seja, a falta de diversidade por trás do desenvolvimento influenciou de maneira contundente no resultado do produto.

Infelizmente, esse não é o único exemplo. Há milhares, como o reconhecimento facial que não reconhece o rosto de mulheres, ou reconhece com grau de dificuldade; reconhecimento de voz, muito mais amigável ao timbre masculino, entre outros. 

Um teste recente de um algoritmo de empréstimos e outros serviços financeiros aprovou muito mais homens brancos de determinada idade. Esse algoritmo foi desenvolvido com dados anteriormente aprovados. Ou seja, a máquina aprendeu com o passado. Só que, se o passado tem um histórico que excluía diversidade, ele vai continuar fazendo isso, só que de maneira mais exponencial.    

A sociedade criou uma separação em que as mulheres cuidam e os homens desenvolvem. É uma cultura que vem desde cedo e que, a longo prazo, leva a uma imensa falta de representatividade, entre outras áreas, no mundo da tecnologia. É só lembrarmos que, na nossa infância, as meninas ganhavam panelas e ferro de passar, e os meninos ganhavam caminhão e ferramentas. 

O Gender Gap Report apontou que 72% dos profissionais de inteligência artificial são homens. E a ONU Mulheres mapeou apenas 17% de programadores do sexo feminino. É muito difícil para uma jovem mulher chegar nesses espaços e dizer “eu pertenço a esse lugar”. Ambientes com maioria de homens intimidam, afugentam. Muitas acabam desistindo ou adotando trejeitos masculinos para se encaixar. E isso pode ser uma pressão muito nociva que contribui para tornar os ambientes mais machistas.

Vale ainda ressaltar como todo esse sistema impõe às mulheres salários inferiores aos dos homens –  uma prática antes tradicional do mercado de trabalho, originalmente patriarcal, em que o homem, como patriarca da família, merecia ganhar mais. Sabemos que hoje essa noção não condiz com a realidade atual, mas tal prática continua sendo feita por empresas.

Trazer mais mulheres e todas as outras diversidades para qualquer área é importante. Para tecnologia eu diria que é fundamental pela capacidade de exponencializar um problema já existente. 

Se nós, profissionais que trabalhamos com tecnologia, não atuarmos de maneira intencional para mudar esse histórico, o racismo, o machismo e todos os preconceitos sistêmicos vão crescer exponencialmente porque é o que a máquina faz. 

Aplicativos são usados por mulheres, negros, homens, velhos, crianças, lésbicas, gays, enfim, pelas mais diversas pessoas. Se não houver diversidade no desenvolvimento, muito provavelmente continuaremos a desenvolver com tags. Um histórico de desenvolvedores privilegiados resultará numa visão privilegiada que não contempla a maioria dos consumidores. Mas, se contratarmos pessoas com um histórico de questões que envolvem seu ambiente e as colocarmos em um mesmo ambiente, teremos uma diversidade de visões tão grande e um produto tão melhor! Isso é bom para as empresas e bom para o mundo. 

Este é claramente um momento de transição, em que a liderança feminina, com o seu olhar mais empático e colaborativo, vai crescer muito conforme as novas gerações vão ingressando no mercado de trabalho. 

Ainda temos um longo caminho a percorrer em direção ao ambiente saudável, em que convivam homens, mulheres, pessoas brancas e negras. Cada um de nós tem a sua luta, as suas questões, o seu papel. Hoje, a tecnologia tem grande importância no mundo; tem muito emprego e é onde o mundo vai se desenvolver. Para as pessoas se enxergarem ali, é preciso mudar todo o mindset. E isso é uma questão de intencionalidade. O velho modelo organizacional é incompatível com os anseios do mundo contemporâneo.

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