fbpx
Compartilhe

* Erica Fridman e Mariana Figueira são cofundadoras do Sororitê

Nos últimos anos, o ecossistema de startups brasileiro cresceu de forma extraordinária. O volume de investimentos de venture capital mais que quadruplicou, passando de  R$10.8 bilhões em 2019 para R$46.5 bilhões em 2021, de acordo com a Associação Brasileira de PE/VC. A grande liquidez no mercado se traduziu em super rodadas e super valuations. 

Durante toda essa fase de euforia, as startups fundadas por mulheres não tiveram muito o que comemorar.  No Brasil, as startups com pelo menos uma mulher fundadora são  9.1% das empresas e receberam somente 2.2% do volume de investimentos, de acordo com o Female Report 2021  do Distrito. Esses números nos levam a concluir que capital não era o problema. 

Desde o início de 2022,  o Brasil e o resto do mundo assistem o mercado de ações ser chacoalhado por juros altos, inflação e pelas consequências da guerra na Ucrânia. Só neste ano, o índice Nasdaq já perdeu 29% do seu valor. Diante deste cenário, não demorou muito para que o ecossistema de startups começasse a sofrer os impactos da mudança de ventos. 

Duas gigantes do setor de Venture Capital, a aceleradora Y Combinator e o fundo Sequoia publicaram documentos alertando as lideranças das startups sobre a importância de se preparar para uma nova era. No Brasil várias startups com valores de mercado acima de um bilhão de dólares- os unicórnios – realizaram demissões em massa. O presidente global da Uber – símbolo de um modelo de crescimento a qualquer custo e muita queima de caixa – declarou que a empresa ficará mais lean e que “contratar será considerado um privilégio”. Definitivamente o período de capital abundante e pouco controle de gastos acabou. 

O que as startups fundadas por mulheres devem esperar agora? O jogo não parece que mudou tanto já que para elas, capital em abundância nunca existiu. Existem no entanto alguns pontos peculiares bem favoráveis no cenário atual em comparação a outros momentos em que houve menos liquidez no mercado. As agendas de diversidade e ESG (Environmental Social Governance) nunca foram tão relevantes, o que contribui para que as fundadoras sejam pelo menos mais vistas e consideradas para receber capital de grupos de investimentos anjos e de fundos de Venture Capital.

Mais do que nunca, este é um excelente momento para empreendedores que são mais responsáveis no gerenciamento dos seus orçamentos. No Sororitê – grupo de investimento anjo focado em fundadoras – , presenciamos muitas CEOs levantando capital  sem muita “gordura” e fazendo um excelente dever de casa quando o assunto é detalhamento dos custos. Ou seja, o comportamento que agora será exigido das startups  já faz parte do perfil de muitas fundadoras. Talvez ele seja reflexo das maiores  dificuldades  que elas sempre enfrentaram para levantar capital e do maior escrutínio que sofrem quando conseguem fazê-lo. 

Para os investidores, este é um ótimo momento pois a tendência é que os valuations estejam menos inchados. Além disso, períodos de crises tendem a ser frutíferos para soluções inovadoras. Se a história se repetir – o que quase sempre acontece – teremos uma nova safra de empresas disruptivas como Uber e Airbnb que surgiram na crise de 2008. 

Em sua carta “Adapt to Endure” (Se adapte para aguentar), a Sequoia citou uma famosa frase de nosso querido Ayrton Senna: “Não dá para ultrapassar 15 carros debaixo do sol mas, quando está chovendo, é possível”. Quem sabe a tempestade no mercado de startups  não passa a ser um marco para que as fundadoras que pensam grande e que ao mesmo tempo tem disciplina no gasto de capital ganhem mais espaço? 

OPINIÃO

Veja todas as opiniões