
Uma gestora de venture capital brasileira, instalada em Palo Alto, berço do Vale do Silício, está por trás de apostas em grandes players da nova economia, como Databricks e Anthropic. Depois de encerrar os investimentos de seus dois fundos, a Fabrica Ventures vem vivendo agora um período de colheita com a retomada dos IPOs nos Estados Unidos.
Após um longo inverno nas ofertas iniciais de ações, a janela começou a se reabrir nos últimos meses, trazendo saídas de empresas como a Circle, de stablecoins, que também faz parte do portfólio da casa e realizou seu IPO em junho do ano passado. Também abriram capital em 2025 outras investidas da Fabrica, como a Netskope, de cibersegurança, que fez IPO em setembro, e a CoreWeave, de data centers, que estreou na bolsa em março.
Para este ano, estão previstos IPOs de empresas como a Anthropic, além de outras empresas do portfólio da gestora, como a Kraken, corretora de criptomoedas, que chegou a entrar com pedido de oferta pública inicial de ações em novembro.
Investida da casa, a Lambda, startup de cloud apoiada por Nvidia e Microsoft, planeja levantar uma nova rodada de US$ 350 milhões antes de dar entrada no IPO, o que está previsto para acontecer no segundo semestre deste ano.
Compras no mercado secundário
A estratégia da Fabrica foge do modelo tradicional de venture capital praticado no Brasil. Embora também participe de algumas rodadas primárias, a maior parte dos investimentos da gestora é feita no mercado secundário.
“Nosso fundo é pequeno, com investimento médio de US$ 700 mil a US$ 1 milhão por empresa. Dado o nosso tamanho, nós não conseguiríamos entrar em mega rodadas. Por isso, a gente se vale do mercado de secundárias, que é muito bem estabelecido nos Estados Unidos”, afirma Alvaro Filpo, cofundador da Fabrica Ventures, em entrevista exclusiva ao Startups.
Além de facilitar o acesso a empresas com grande potencial de valorização, a estratégia permite que a gestora compre participações de executivos, ex-executivos e de outros fundos, muitas vezes em condições mais atrativas do que as oferecidas em rodadas abertas ao mercado.
“Existe muita oportunidade nesse mercado. A Brex [fintech americana fundada por brasileiros] a gente comprou com 60% de desconto sobre a última rodada. Às vezes, compramos com prêmio, mas às vezes conseguimos com baita desconto”, conta o investidor.
Atualmente, a Fabrica tem cerca de 135 Limited Partners (LPs) – a maior parte brasileiros. O foco da gestora está em startups B2B sediadas nos Estados Unidos e late-stage.
Via de regra, a Fabrica não pode investir mais de 8% do capital em uma única empresa e evita posições inferiores a 2%. O alvo é cerca de 4% por ativo, o que leva a uma carteira com aproximadamente 25 empresas. No segundo fundo, esse número chegou a 27 investidas.

Antes de cada aporte, a gestora realiza um processo rigoroso de análise. As teses de investimento são extremamente detalhadas, com até 80 páginas, e passam por um comitê formado por LPs, entre eles executivos de grandes companhias e sócios de consultorias globais. Para embasar as decisões, a Fabrica recorre a plataformas de inteligência de mercado como a CB Insights, que ajudam a identificar padrões de crescimento, recorrência de investimentos e sinais de liderança setorial.
A análise também leva em conta a qualidade dos investidores já presentes no cap table. “Se um fundo como a Andreessen Horowitz continua investindo rodada após rodada, isso é uma sinalização muito forte de que existe uma chance de sucesso ali”, acrescenta Alvaro.
Nem só de IPO vivem os fundos
Apesar do bom momento para os IPOs, o investidor reconhece que as saídas via M&A ainda têm o seu valor. Na véspera de Natal, uma das investidas da Fabrica, a startup Groq, de IA, anunciou a sua aquisição pela Nvidia, em uma operação estimada em cerca de US$ 20 bilhões.
“O IPO acaba sendo uma coroação para a empresa, é o ápice para o fundador. Mas, se passa o cavalo selado, você vai subir”, brinca Alvaro. “Uma oferta de US$ 20 bilhões não pode deixar passar. Dificilmente uma saída via IPO chegaria a esse valor”.
Otimista com a possibilidade de corte de juros em 2026, porém, o investidor acredita que o mercado de IPOs ainda trará boas surpresas este ano – e bons retornos aos cotistas da Fabrica.
A gestora avalia a possibilidade de lançar um terceiro fundo, mas não tem pressa. “A gente pensa nisso mais para o final do ano. O processo de fundraising é muito desgastante e longo, exige bastante energia”, afirma o cofundador, que reconhece que, com os resultados alcançados até agora, pode ser que essa etapa fique mais fácil. Apesar de ser uma gestora pequena, a Fabrica já figura no primeiro decil de performance da indústria de VC. “Esse é um bom cartão de visitas”, admite Alvaro.