fbpx
Compartilhe

Durante anos, Laura Salles trabalhou com atração e seleção de talentos em grandes empresas do setor hoteleiro na Europa e se incomodou com a baixa retenção de grupos sub-representados e a capacitação destes profissionais. Com vontade de mudar este cenário em seu país, regressou ao Brasil para desenvolver a Plurie BR, edtech que propõe apoiar a continuidade de esforços de empresas em criar forças de trabalho mais diversas.

Fundada em novembro de 2021 por Laura e Viviane Moreira, a Plurie BR oferece uma plataforma baseada no modelo software as a service (SaaS), com planos mensais que custam a partir de R$10 por colaborador. O serviço traz material multiplataforma incluindo vídeos no formato pílula e conteúdos mais longos gravados, além de rodas de conversa ao vivo estreladas por um cast de mais de 20 especialistas, incluindo executivos como Chieko Aoki, da Blue Tree Hotels e Luiza Trajano, da Magazine Luiza, além de acadêmicos, ativistas e líderes de organizações sociais. A plataforma já formou mais de 400 pessoas desde sua fundação.

As trilhas de conteúdo são personalizadas de acordo com as necessidades do cliente, que passa por um mapeamento prévio feito com uma metodologia proprietária antes de acessar o streaming. O diagnóstico – que tem foco na performance da empresa nos pilares de diversidade e inclusão (D&I), como raça, orientação sexual e gênero – é refeito a cada seis meses, com o objetivo de medir o progresso da empresa.

Um dos principais objetivos da Plurie BR é fornecer educação para o alto escalão de empresas, para endereçar a falta de diversidade em conselhos no país. Segundo um estudo da Page Group em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), 90% dos CEOs de empresas brasileiras são homens e brancos. “No Brasil, temos um país totalmente diverso e vemos que os grupos minoritários estão pouquíssimo representados [em posições de liderança]. Por exemplo, vemos que entre as 500 maiores empresas do Brasil, só um CEO é negro [Edvaldo Vieira, da Amil], fica óbvio que algo precisa mudar”, pontua a cofundadora, em entrevista ao Startups.

“Vemos que empresas que querem ser vistas fazendo muito [em D&I], têm uma comunicação linda. Mas quando olhamos os processos de perto, eles estão muito pouco implementados. O que as empresas nos trouxeram é que há muita vontade de trabalhar com diversidade e inclusão, mas elas não conseguem tirar as políticas do papel”, acrescenta. A observação de Laura é corroborada por outra pesquisa da FDC, que sugere que empresas brasileiras que tem políticas sistematizadas de D&I ainda são minoria: apenas 34% dos 400 executivos consultados investem nesta frente.

Gerando métricas para avançar diversidade

A pesquisa de mercado que a Plurie BR conduziu trouxe algumas constatações no que diz respeito às dores de empresas quando o assunto é D&I, e por que a pauta custa a avançar. O primeiro ponto é o custo: a pesquisa de mercado da startup revelou que empresas pagam entre R$7mil e R$9,5mil por hora de consultoria de D&I, e que censos completos de diversidade custam mais de R$ 30mil.

“Muitos destes serviços estruturais, que inclusive recomendamos, são necessários. Mas não somos uma consultoria, trabalhamos a parte educacional, [fornecendo um instrumento para] mudar a cultura organizacional”, ressalta Laura. A fundadora acrescenta que, não raro, empresas investem em ações de diversidade de forma pontual e inconstante, e não é incomum ver organizações focando em diversidade e inclusão somente três vezes por ano: em março (Mês da Mulher), em junho (Mês do Orgulho LGBTQIA+) e em novembro (Mês da Consciência Negra).

O outro motivo da falta de interesse da liderança pelo tema é a falta de métricas e cases de mercado que demonstrem o impacto da diversidade no negócio, diz Laura. “Líderes estão pouco engajados porque ainda não estão vendo métricas reais de sucesso com base em outras empresas que desenvolveram essas práticas e ações de diversidade, e que tiveram resultados efetivos”, pontua.

As fundadoras da Plurie BR, Laura Salles e Viviane Moreira

Com os dados gerados por suas avaliações, a Plurie BR quer endereçar a questão das métricas, como senso de pertencimento entre as populações da empresa, como está a evolução de promoções e quanto está sendo investido na formação das pessoas de grupos sub-representados. “Queremos engajar a liderança com indicadores e que isso seja feito de forma contínua para mudar a cultura organizacional e trazer diversidade e inclusão não só para a atração de talentos, mas para fazer com que estas pessoas se sintam incluídas de fato e a retenção de talentos seja controlada”, aponta.

Quando o assunto é o conjunto de temas que são tratados nos conteúdos da edtech, Laura diz que o assunto mais procurado é liderança inclusiva, além de vieses inconscientes, principalmente na atração e seleção de talentos. “As pessoas ainda têm muitas dúvidas com relação a vagas afirmativas, como fazer um processo de atração e seleção inclusivo e como comunicar isso de maneira efetiva”, observa a fundadora.

Causando impacto no ecossistema de startups

Depois de ter a ideia que posteriormente se tornaria a Plurie BR quando ainda morava em Portugal, Laura começou a buscar co-fundadores em potencial. A empreendedora então começou a conhecer pessoas que pudessem apoiar a construção da empresa e estivessem engajadas na causa de diversidade e inclusão. No fim, acabou tendo o primeiro contato com aquela que seria sua cofundadora através do Estação Livre, programa da TV Cultura comandado pela jornalista e empreendedora Cris Guterres, cujo foco é valorizar a cultura negra e a diversidade.

“Quando vi [Viviane] sendo entrevistada na TV, pensei: ‘é ela’. Fiz uma primeira abordagem via LinkedIn, começamos a conversar e pensar juntas e viramos sócias”, conta a empreendedora. “É uma coisa bem diferente, porque normalmente no mundo de startups, as pessoas se conheceram na faculdade ou trabalharam juntas, e acabam tendo o mesmo perfil e trajetórias muito parecidas. Este não é o caso com a gente, temos trajetórias e vivências diferentes.”

Segundo a CEO, o que aproximou as cofundadoras foi uma visão em comum. “A Vivi está há muitos anos na luta por equidade racial e traz muito isso das empresas que trabalhou. Ela formou várias grupos de afinidade, além de fazer parte do Conselheira 101 [primeiro grupo de fomento para a inserção de mulheres negras em conselhos administrativos do Brasil]. Ela vinha com este histórico muito sólido e eu e queria muito trabalhar com isso: o propósito nos uniu”, conta.

Prioridades que Laura e Viviane definiram para os próximos meses inclui ganhar tração e acertar a aderência do produto ao mercado com mais empresas usando o streaming da Plurie BR, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo. Atualmente, clientes incluem o escritório de advocacia Lobo de Rizzo, a Liderança Serviços Financeiros, que faz parte do Grupo Santander, e a Fundação Casa, que é atendida pelo lado social da startup. A empresa também enxerga oportunidades em instituições de ensino, que segundo Laura “estão muito pouco preparadas para falar de diversidade e inclusão”, além de outros modelos B2B2C para fazer o conteúdo chegar em públicos mais amplos.

Além disso, novidades como um curso de ESG para o mercado de venture capital, que a empreendedora afirma ser o primeiro do mercado, também estão no roadmap. “Vemos que tanto gestoras quanto startups tem uma dificuldade em implementar, materializar o ESG, apesar de o debate sobre estas frentes estar se intensificando. Acreditamos que este processo pode ser acelerado”, ressalta.

“Se fundos apoiarem suas investidas para crescerem nesse sentido, derem [conteúdo sobre estes temas] meio que de mão beijada, junto com as métricas que vocês precisam analisar, é bom para todo mundo. A investida consegue causar mais impacto, e conseguir [avançar a agenda de D&I em] investimentos é bom para a gestora, que responde melhor aos LPs. Então, é bom para o sistema todo”, pontua Laura.

Falando em investimento, a Plurie BR levantou R$ 300,000 de anjos para colocar a plataforma de pé, e está fechando uma rodada bridge no mesmo valor. No entanto, as empreendedoras já tem planos para uma captação de R$ 9 milhões no último trimestre deste ano.

Em um período de 12 meses, Laura espera poder contar que sua edtech conseguiu diminuir o turnover de empresas, e que conseguiu aumentar investimento na capacitação de grupos minoritários em ambientes corporativos, não só em grandes empresas, mas também em organizações de médio porte. “Queremos conseguir abrir uma nova caixa de Pandora no nosso mercado, que é ter empresas que nascem e crescem sendo conscientes do impacto em diversidade,” finaliza.

OPINIÃO

Veja todas as opiniões